6 de fevereiro de 2024

ESG é para qualquer empresa?

NÃO e SIM! Pode parecer confuso, mas vou explicar a partir de um contexto histórico.

Para início de conversa, “sustentabilidade” é um termo polissêmico. Ou seja, possui diferentes significados e interpretações, dependendo do contexto em que é utilizado. E como abrange diversas áreas e disciplinas, gera interpretações variadas. Como falaremos de conceitos é importante entendermos o contexto por trás de cada um – inclusive o mais queridinho do momento: o ESG.

Em 1968, o Clube de Roma reúne diversos cientistas para estudar questões globais relacionadas ao crescimento populacional e a disponibilidade de recursos naturais. No relatório "Os Limites do Crescimento", encomendado ao MIT, em 1972, surge a primeira ideia do que viria a ser sustentabilidade, à época: equilibrar o desenvolvimento econômico com a conservação dos recursos naturais. Um importante passo, reconhecendo a finitude dos recursos naturais e a dependência da economia destes recursos para sustentação da bem-estar no longo prazo.


Clube de Roma

Em 1987, no Relatório de Brundtland, temos, pela primeira vez na história da sustentabilidade, a definição do conceito “desenvolvimento sustentável”: A humanidade é capaz de tornar o desenvolvimento sustentável – de garantir que ele atenda às necessidades do presente, sem comprometer a capacidade das gerações futuras também atenderem às suas. O significado utilitarista da sustentabilidade permanece, assim como em 1968, a partir das necessidades humanas. Entendo essas necessidades como a base da Pirâmide de Maslow. Mas para época foi um grande passo, apesar de não existir nada mais mutável do que “necessidade”. Por exemplo, as necessidades humanas de 1987 são as mesmas que 2024?


Gro Harlem Brundtland

Logo após a Eco 92, com governos e empresas mobilizadas pela Agenda 21, em 1994, o inglês John Elkington traz um dos conceitos de sustentabilidade mais difundidos no ambiente empresarial – o famosíssimo Tripé da Sustentabilidade (ambiental, social e econômico), ou, em inglês, Triple Bottom Line (Profit, People and Planet). Segundo o autor, o conceito consiste em conjunto de ações que asseguram o sucesso do negócio a longo prazo, gerando lucro ao mesmo tempo em que contribui para a equidade social e redução dos danos ao meio ambiente. Aqui a sustentabilidade começa a ser mais pragmática: toda empresa precisa gerar lucro, mas precisa, simultaneamente, gerir suas externalidades socioambientais, entregando mais valor para seus stakeholders (e não somente os stockholders). Esse conceito é bastante abrangente e pode ser aplicado em qualquer empresa, não importa o tipo de atividade ou porte.


Rio Eco 92

Eis, então, que surge, nos anos 2000, uma das siglas mais comentadas no meio corporativo – ESG (ou ASG, em português)! De certa forma, o termo vem sendo banalizado e vejo com cautela a proliferação de “especialistas” em ESG. Mas como diz Juliana Antunes: Sustentabilidade é uma área de generalistas! É mister enxergar o todo...

Mas afinal, ESG É PARA QUALQUER EMPRESA? Vamos às respostas:

NÃO: primeiro, vamos ao contexto do conceito. Ele surgiu a partir da visão dos investidores institucionais, gestores de ativos (notadamente, Black Rock) e empresas de que os fatores ambientais, sociais e de governança não apenas tinham impactos significativos na sociedade e no meio ambiente, mas também poderiam influenciar o desempenho financeiro das empresas, no longo prazo. Em outras palavras: precisamos previnir e mitigar riscos de possíveis multas ambientais e/ou processos trabalhistas, por exemplo, na busca pela otimização das receitas e distribuição de dividendos.

Muita gente pergunta: mas cadê a dimensão econômica do ESG que não aparece na sigla? Respondo: ESG É A DIMENSÃO ECONÔMICA/FINANCEIRA, na veia! As duas principais (não exclusivas) motivações de uma empresa que deseja implementar o ESG é ter maior acesso a linhas de crédito e maior rentabilidade de suas ações em índices exclusivos, como Dow Jones Sustainability Index (DJS) e o Índice de Sustentabilidade Empresarial(ISE). Se sua empresa não tem esses objetivos, talvez o ESG não seja o melhor conceito.

SIM: apesar do contexto do ESG não ser aplicável à realidade da maioria das empresas, isso não quer dizer que elas não possam “beber na fonte” do conceito. Nenhuma empresa de permanecer na inércia quando o assunto é sustentabilidade. Então o que importa é a caminhada constante. Uma forma de começar essa caminhada é alinhar as práticas da empresa às diretrizes da ABNT PR 2030 - Ambiental, social e governança (ESG):Conceitos, diretrizes e modelo de avaliação e direcionamento para organizações. Como são muitos critérios, avalie aqueles que você de condições operacionais para implementar.

Portanto, ESG “É” e “NÃO É” pra qualquer empresa! O importante é entender os termos, seus significados, e combiná-los, numa verdadeira alquimia, com o propósito de atender às necessidades do contexto em que a prática se concretiza. E aí, qual desses conceitos faz mais sentido para o contexto em que você trabalha?